Palestra: Como Reconhecer uma Escola de Sabedoria?

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Diante da evolução do conhecimento, com múltiplas especializações, ramificações e explosão de informações e significados, como filtrar o que é de real importância?

Questionamentos fundamentais para o desenvolvimento de um Método de Aprendizado confiável nas condições deste momento histórico.

Técnicas para obter-se o estado de consciência para o desenvolvimento da interação com as Escolas de Conhecimento disponíveis na atualidade.


Sobre o palestrante
Roberto Navarro, Físico, doutor em inteligência artificial, autor de artigos em periódicos internacionais e participante dos grupos ligados ao Instituto Nokhooja há 30 anos.

Sobre o Instituto NoKhooja

Criado há mais de 30 anos a partir de um núcleo de pessoas interessadas em identificar e valorizar pontos de contato e verdades transculturais, que tornam possível o desenvolvimento do ser humano dentro de uma perspectiva harmoniosa e não-alienante, o Instituto NoKhooja busca estudar o que há de mais essencial nas diversas fontes de conhecimento do passado e do presente, sem estabelecer juízo de valores.

Expediente:

Palestra: “Como Reconhecer uma Escola de Sabedoria?”

• Data: 19/3 (5a feira), às 20h30
• Onde:  Instituto Nokhooja -Rua Antonio Raposo, 92, Lapa – São Paulo http://g.co/maps/a5fq
• Inscrições: formulário abaixo ou eventos@nokhooja.com.br

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Trindade e Androginia – Ferramentas para o Despertar da Consciência

Resumo da palestra realizada pelo Dr. Carlos Godo na sede do Instituto NoKhooja em 5 de março de 2015

Justificativa

Sabemos que a linguagem que utilizamos para nos comunicarmos uns com os outros é bastante subjetiva, visto que os elementos utilizados, palavras, conceitos, constructos gramaticais podem ser reconhecidos de forma bastante rápida e eficiente pelas pessoas mas, normalmente, eles acabam evocando memórias, associações raciocínios que estão associados à experiências muito particulares e individuais, de forma que apenas o elemento mais geral e compartilhado é que acaba sendo levado em conta nesse contexto.

Por exemplo, ao falarmos de ‘mar’, cada pessoa ao ouvir essa palavra a associa a um conjunto de imagens e experiências pessoais que, com certeza, nada têm a ver com aquelas imagens e experiências que se referem ao conceito de ‘mar’, próprios, que estamos tentando comunicar.

Ainda assim, fica uma imagem comum de ‘imensa quantidade de água’ que banha as praias e costas de alguma região.

Isto acontece sempre que estamos tentando conversar com uma pessoa, seja com o uso de palavras e conceitos mais palpáveis, seja quando tentamos fazer uso de conceitos e palavras mais abstratos, por exemplo, o conceito da cor vermelha poderá variar de indivíduo para indivíduo, estando mesmo alterado nos indivíduos daltônicos, um tipo de dificuldade para identificar corretamente a cor vermelha do ambiente, que lhe aparece como uma outra tonalidade, que ele aprendeu a chamar de ‘vermelho’.

Embora esse subjetivismo nas comunicações possa ser superado através do uso de linguagens mais específicas ou de ordem mais técnica, onde grupos de pessoas são treinadas para reconhecerem na mesma palavra técnica o mesmo conceito compartilhado, algo que é necessário, por exemplo, nas profissões em geral,a fim de evitar, justamente, o problema do subjetivismo e da ambiguidade, ainda assim não nos é possível falar de uma linguagem totalmente isenta deste grau de inexatidão, mesmo na matemática, considerada a forma mais concreta de comunicação e transferência de conhecimento.

Se reconhecemos que este problema existe, devemos então considerar que o mesmo subjetivismo e ambigüidade existem dentro dos nossos pensamentos e decisões pessoais, visto que a nossa fala,simplesmente, expressa aquilo que acontece dentro do nosso mundo mental.

Nesse contexto, o problema se torna ainda mais complicado porque podemos perceber com relativa facilidade, que tomamos de empréstimo uma série de conceitos e ideias de diversos lugares diferentes e os utilizamos, com frequência, fora do seu contexto de origem.

Por exemplo, a palavra ‘fato’, geralmente, é utilizada com sendo algo comprovadamente verdadeiro, verificado cientificamente (outro conceito tomado de empréstimo do linguajar científico) e que, na realidade, representa um elemento qualquer que foi mensurado ou avaliado de acordo com certas regras e assim, pode ser avaliado ou integrado dentro de um conjunto de regras bem definidas.

Ainda assim, podemos encontrar outros significados e interpretações para a palavra ‘fato’, o que nos coloca na situação de que,para podermos lidar com a palavra, na maioria das vezes somos obrigados a levar em consideração o contexto em que ela está localizada para podermos compreender, realmente, aquilo que o outro está tentando no dizer.

Alguns significados da palavra ‘fato’, obtidos através de um site na Internet:

Significado de: Fato

s.m. Resultado acabado ou que está prestes a ocorrer: o fato está prestes a ser consumado.
Coisa cuja realidade pode ser comprovada; verdade: a fiscalização das barracas ilegais é agora um fato.
Jurídico: O que foi finalizado e não pode ser mudado e/ou alterado.
Fato Consumado
: Fato cujo propósito foi efetivado ou certamente será.
Ir aos fatos: Ir ao essencial, ao que interessa.
É fato: É verdade.
De fato
: Realmente, verdadeiramente.
Ir às vias de fato
: Agredir fisicamente.
(Etm. do latim: factum)
s.m. Animal. Rebanho de animais (cabras) em pequeno número.
Animal. Entranhas de animais; miúdos.
Vestuário. Vestimenta utilizada para uma ocasião específica cujos propósitos já estão determinados: fato de mecânico.
Portugal. Roupa masculina ou o mesmo que terno.
(Etm. de origem questionável)

Portanto, temos de reconhecer que a nossa linguagem ambígua, subjetiva e ineficiente parece ser o resultado de um processo interno igualmente caótico, confuso e mal definido, sendo que com muita frequência fazemos o uso de termos, conceitos e significados tomados de empréstimo de outras áreas de conhecimento sem que saibamos ou venhamos a estabelecer isso de forma clara. Na média, vamos nos entendendo, mas no final tudo resulta numa grande confusão…

Para podermos reverter o processo, temos de identificar os elementos cruciais do nosso discurso e tentarmos estabelecer bases comuns de experiências e compreensões para que, quando um determinado termo ou conceito forem discutidos, todos os participantes da troca de informação estejam cientes dos mesmos elementos e definições e a possibilidade de gerar-se confusão seja minimizada o máximo possível.

Portanto, não podemos falar de uma comunicação eficiente e sem subjetivismos em termos de um grande número de pessoas envolvidas, mas é possível fazer isso num grupo de pessoas que passou por um aprendizado comum e gerou um conhecimento compartilhado dos elementos que estão sendo discutidos.

Essa é a proposta do Quarto Caminho, criar uma linguagem especial que se baseie nas experiências e descobertas que um grupo de pessoas realiza ao longo de um lento processo de educação especial, conhecimento este que, compartilhado, permite a introdução de novas perspectivas e desenvolvimentos.

Assim, qualquer proposta ou conceito que venha a ser desenvolvido dentro do campo dos estudos do desenvolvimento da Consciência, naquilo que recebeu o nome de Trabalho de Quarto Caminho, tem de ser contextualizada dentro do edifício referencial do mesmo e não ser,simplesmente, incorporado sem quaisquer ressalvas, porque depende de uma confirmação consensual que terá, necessariamente, de acontecer dentro de um grupo de estudos.

Todo o processo se baseia na experiência e na prática dos conceitos e propostas do Trabalho e assim, representa um ponto comum de partida para todos os participantes e não,meramente, um conjunto nebuloso de informações e elementos folclóricos obtidos de fora do contexto da proposta.

Trindade e Androginia em termos gerais

A Trindade, representa um termo que nos foi dado de empréstimo pela Teologia que, de certo modo, o utiliza como elemento característico do Cristianismo, ao situar a figura de Jesus Cristo (o Filho) no mesmo patamar do Criador, o Pai, e de um Espírito Santo que completa a Trindade Cristã.

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Essa definição de um deus ‘3 em 1’ sempre representou uma grande dificuldade conceitual para a teologia cristã, principalmente no seu contraponto com a teologia unitária do Judaísmo e do Islão. Embora reconhecendo a unicidade de Deus, o Cristianismo, ao mesmo tempo, define que ele pode ser apresentar sob um aspecto trino mas, ainda assim, único o que, para um estudioso que não esteja versado nas nuances teológicas cristãs isso parecerá, no mínimo, um contrassenso.

O conceito de Trindade na sua forma mais simples, como um conjunto de três deuses ou entidades que se situa no topo da escala da criação, pode ser encontrado na Índia (Brahma, Vishnu, Shiva), desde a mais remota antiguidade, no Egito, com Ra, Isis e Osíris e em outras mitologias da história da humanidade. O agente complicador aqui é a tentativa de tornar três em um ou um em três, como iremos ver mais adiante.

Já a Androginia é um termo técnico, que nos foi dado pelas Ciências Biológicas e que define um organismo que contém dentro de si mesmo e, ao mesmo tempo, tanto o equipamento biológico de um macho quanto de uma fêmea e que, supostamente, seria capaz de realizar a sua própria autofecundação.

Esta ideia já era utilizadapelos antigosGregos que, até mesmo, consideravam que, num determinado momento da evolução dos homens, um mesmo ser conteria o lado masculino e feminino ao mesmo tempo e que Zeus decidiu separá-los, de forma que agora haveria indivíduos de um determinado sexo em busca da sua contrapartida, como uma espécie de ‘amor’ em busca da realização.

Já na Alquimia medieval, o surgimento do elemento Andrógino ao longo da operação alquímica indicava a superação das barreiras mais físicas ou grosseiras.

Este tema costuma atrair,bem como repelir as pessoas que entram em contato em ele, na medida em que ele remeteà sexualidade, que é um tema que exerce uma grande fascinação sobre todos os seres humanos maturos.

Encontramos duas formas diferentes de tentar compreender a presença de ambos os sexos num mesmo indivíduo: quando encontramos a presença de ambos os sistemas reprodutivos, masculino e feminino num ser humano, temos um hermafrodita, embora possa haver a predominância de um gênero sobre o outro, em formas que vão desde a presença patente de ambos os sistemas genitais, até uma forma menos evidente e atrófica de um destes. Já a androginia, embora possa ser utilizada como sinônimo de hermafroditismo, parece indicar uma dimensão menos física e mais emocional, psicológica e mesmo, espiritual da presença das energias masculina e feminina num determinado indivíduo.

Em termos genéticos, sabe-se que ao longo do seu desenvolvimento dentro do útero materno, a criança apresenta a possibilidade genética tanto de vir a se desenvolver como menino ou menina, assim, ao longo de um certo período de tempo todos nós passamos por um período de hermafroditismo potencial, até que, pela presença de hormônios masculinos, secretados pela porção masculina, a parte feminina passa por um processo de atrofia e desaparece quase que totalmente no menino. Quando o hormônio masculino não atua, a porção masculina se atrofia e a feminina se desenvolve. O gatilho para tal transformação estaria situado provavelmente na presença e atuação do ‘cromossoma x’ ao longo do desenvolvimento do embrião.

A Trindade e a Androginia dentro do ambiente do Quarto Caminho

Como foi visto acima, ambos os temas devem ser revistos dentro do contexto do horizonte maior do Quarto Caminho para que possamos estabelecer uma base comum de conhecimento e podermos discutir o assunto fora do contexto religioso ou biológico.

Para tanto, temos de fazer uso de uma ferramenta característica do Trabalho, que constitui uma das suas leis fundamentais: a Lei de Três.

Em termos gerais, ela diz que qualquer fenômeno que tenhamos a oportunidade de presenciar sempre será a resultante da interação de três forças, no caso, uma força ativa, que é aquela que apresenta a maior intensidade no conjunto, atuando sobre uma força passiva, que é a de menor intensidade no conjunto, sendo que essa interação seria modulada ou controlada pela atuação da força que se situa no intermédio, ou seja, a força neutralizadora.

Comparativamente, a física clássica reconhece apenas dois elementos, uma causa que, pela sua ação, determina um efeito. Temos aqui, portanto, uma visão reducionista da Lei de Três, dualizante, que basta para as necessidades da Física.

Costumamos dizer que, para fins de um estudo especial, que visa identificar o menor número possível de agentes para poder tentar compreender e avaliar um determinado fenômeno e acontecimento dentro da dimensão humana e para a consciência humana, mergulhada no mundo dos fenômenos, a visão dualista não é suficiente e assim surgiu o conceito de Dialética, coma fórmula de ‘Tese, Antítese e Síntese’ que, de certo modo, reintroduz a Lei deTrês dentro da dimensão do pensamento humano.

De qualquer maneira, um estudo mais aprofundado da Lei de Três dentro do ambiente do Trabalho de Quarto Caminho e da sua utilização para a geração de um pensamento dialético que pode nos ajudar nos estudos da Consciência, poderá ser encontrado no volume ‘Raio da Criação’ que está sendo preparado para publicação para este ano.

A Lei de Três estuda o fenômeno que podemos observar ao nosso redor e nos permite interpretá-lo como a resultante da interação de três forças.

Deve ser notado que todas as três forças possuem alguma atividade, elas se diferenciam, principalmente, pela intensidade com que participam do processo, assim como das características que permitem uma interação de forma útil para a produção do fenômeno que estamos estudando.

Assim, se analisarmos o que acontece quando acendemos um  fósforo, notamos que o fogo que desejamos analisar nasce da interação de três forças: do movimento de atrito entre os componentes da cabeça do fósforo com a lixa que existe acoplada à caixa de fósforos, que atua transmitindo energia suficiente para causar a ignição dos elementos químicos que compõem a cabeça do fósforo e a consequente ignição da madeira ou papelão que recebe essa energia e, na presença de oxigênio atmosférico, acaba gerando o fogo.

Assim teríamos:

Força Ativa: o atrito que é desencadeado pelo ato de esfregar a cabeça de fósforo contra a lixa da caixa de fósforo,

Força Passiva: o conjunto de elementos que podem sofrer uma combustão química, numa formulação que permita com que ocorra uma ignição,

Força Neutralizadora: a existência de um elemento (madeira, papelão, etc.), que juntamente com o Oxigênio do ar atmosférico é capaz de proporcionar a manutenção da chama depois de desencadeada e criar uma chama útil.

Dentro da perspectiva da física clássica, a força do atrito funcionaria como a ação e o surgimento da chama como reação. O contexto intermediário não é levado em consideração.

O desenvolvimento de uma atitude ‘dialética’ que leve em consideração uma interpretação da nossa realidade em termos de três forças e não de um dualismo ao qual fomos educados pelos sistemas educacionais atuais, representa uma das primeiras tarefas e esforços que um estudioso do Trabalho deve desenvolver caso ele tenha um interesse sério de se aprofundar nos estudos do desenvolvimento da Consciência e do Ser. Isto ocorre do fato que, geralmente, somos educados a fazer uso do pensamento dual científico que não consegue nos oferecer uma perspectiva correta do mundo dos fenômenos que nos rodeia.

Iremos aplicar a Lei de Três para ambos os conceitos que serão discutidos a seguir. Notemos que esta proposta nos permite ‘abrir’ o conceito e nos localiza dentro de cada um deles, ou seja, não temos espaço, aqui, apenas para raciocínios e divagações puramente teóricos e desvinculados da realidade do ser humano no aqui e agora.

O que nos interessa é verificarmos de que forma a aplicação da Lei de Três, em contextos variados, permite que sejam recontextualizados dentro do ambiente do Quarto Caminho e, com isso, revertendo a um melhor entendimento da sua importância prática para a nossa própria jornada.

Trindade

Se o conceito teológico da Trindade nos permite situar três poderes, seres, divindades, etc., dentro do Universo, a aplicação da Lei de Três nos permite definir uma série de patamares ou circunstância que podem ser utilizados no seu estudo e isto nos ajudará a entender melhor o problema do fenômeno, ou seja, a maneira pela qual a ConsciênciaHumana entende e pode participar do processo estudado.

Quando o conceito de Trindade é realocado dentro do Trabalho notamos que, de início, ele nos permite identificar três grandes forças, uma ‘ativa’ , o Criador ou Pai; uma passiva, que é a expressão física dessa criação, o ‘Filho’  e um elemento que permite com que a criação possa fluir da decisão criativa do Pai para a sua realização concreta e permita com que o Universo surja debaixo de uma ordem e harmonia, caso contrário, tudo terminaria sendo criado imediatamente, do primeiro ao último fenômeno, instantaneamente. Este elemento é o agente neutralizador, também chamado de ‘Espírito Santo’.

Portanto, ao considerarmos a Criação como um todo, não podemos deixar de perceber que ele somente existe porque existem três forças interagindo o tempo todo e permitindo com que o Universo exista debaixo das condições em que pode ser percebido pela consciência humana tal como percebemos agora.

O Pai, como força ativa, contém dentro dele a potencialidade de geração de todos os elementos e recursos que permitem com que a Criação venha a acontecer. A resultante da sua ação se aplica dentro de um espaço que é gerado dentro da própria existência do Pai, onde a criação poderá ser materializada ou objetificada como o Universo em que nós existimos. Este espaço deve ser capaz de conter toda a criação possível de ser criada debaixo de certas condições, que não temos capacidade de compreender, mas que, com certeza, não contempla a expressão física de toda a potencialidade de todos os elementos que o Criador engloba, senão haveria o caos.

Assim, a realidade que contemplamos existe a partir da ação criativa do Pai que gera os elementos que nos rodeiam e que não nos contradizem (por exemplo, um universo onde estaríamos mergulhados em um fogo intenso não nos pareceria muito confortável…) e, o Filho, resultante deste processo criativo deve expressar a harmonia e as possibilidades que estão implícitas na Criação que ele habita. Uma dessas potencialidade representa justamente a capacidade de aperfeiçoar e de evoluir em direção à origem, o que nos coloca debaixo de uma lei evolutiva que exige que aquilo que fomos e fizemos ontem, seja feito hoje melhor e que amanhã, a exigência será ainda maior, assim por diante.

Não existimos numa Criação parada e estática, mas num processo que envolve interações, destruições e construções contínuas para que exista a possibilidade de aperfeiçoamento das coisas como um todo.

No caso especial da Trindade Cristã, o Pai é reconhecido como o agente criativo capaz de gerar tudo, enquanto que a dimensão humana de Jesus, o Filho surge a partir da matéria, e portanto recebe o nome de Filho do Homem, porque todos os seres humanos foram criados e existem na dimensão material; entretanto, a trajetória de Jesus nos fala da evolução do ser humano, de algo criado e quiescente para algo consciente e conhecedor do seu destino e cumpridor deste, o Cristo, que se oferece como sacrifício e exemplo justamente contra a ignorância e desconhecimento do seu destino por parte dos demais seres humanos, e assim assume o papel de Filho de Deus que é, precisamente, aquele destino reservado para todos os seres humanos que trafegam no caminho do desenvolvimento do Ser e da sua Consciência.

É interessante notar, aqui, que em algumas escolas gnóstica, cristãs e não-cristãs, essa Trindade era apresentada como Pai, como elemento ativo, o Filho como a Criação em si, e o elemento feminino Sophia que correspondia ao Espírito Santo.

Isto nos indica a existência de uma Criação dinâmica onde podem ocorrer modificações de status, situações e interações, experimentos e aprendizados, transformações, assim dizendo.

Aqui é importante ressaltar o papel da força neutralizadora, o Espírito Santo, ou seja, o conhecimento específico do plano da criação, que define quais os elementos que devem ser criados, quando, em que contexto e assim por diante. Mas talvez o que seja mais importante é que ele também tem de definir aquilo que não deve ser criado para não criar contradições ou imperfeições.

O Espírito Santo é justamente o elemento de ligação e modulação do ato criativo que permite com que o Universo exista de forma harmônica e evolutiva, sem que existam elementos anacrônicos ou sem lugar de existência.

Portanto, o Espírito Santo é algo que, de certo modo, reveste e aglutina todos os processos de geração de um determinado fenômeno, de modo a permitir com que ele exista dentro de sua totalidade e tenha os elementos para evoluir de acordo com a sua potencialidade.

No Trabalho de Quarto Caminho, ele é conhecido como ‘AUR’, ou seja, um campo das informações que contém todos os elementos que irão gerar um determinado fenômeno, desde uma galáxia a um grão de areia, sendo que estes elementos preexistiriam à própria criação ou surgimento do fenômeno em termos objetivos, porque ele contém toda a trajetória evolutiva deste fenômeno, seu passado, presente e futuro, assim como todos os elementos para que isto possa acontecer.

Isto é de particular importância para o ser humano, visto que a sua capacidade de se tornar consciente da sua essência lhe permite acessar o seu Aur em graus crescentes de capacidade e eficiência e isto nos permite, como seres humanos em desenvolvimento, estabelecer uma espécie de diálogo com o nosso próprio AUR e até mesmo ‘programá-lo’, em certas circunstâncias.

Àquela porção essencial presente dentro do ser humano que consegue adquirir e consolidar todos os elementos do Aur que lhe estão disponíveis no seu estágio atual de desenvolvimento, e que constitui o seu ‘ser’ conscientizado como uma ‘presença’, recebe, dentro do Trabalho de Quarto Caminho, o nome de ‘alma’.

Desta forma a ‘alma’ é um processo de aquisição ativa e de desenvolvimento crescente que vai evoluindo de acordo com os potenciais e elementos que lhes são disponibilizados pelo AUR, ou projeto do indivíduo.

Este Espírito Santo também é reconhecido como o agente intermediário que permite com que a Criação ocorra de forma ordenada e dentro de certos limites e sempre foi considerado como sendo o elemento capaz de interferir na própria matriz da realidade. Dentro do Sufismo Iraniano, mais notadamente dentro da escola Ishraq, ele recebe o nome especial de ‘Doador de Formas’, já que ele é que permite que algo se realize ou não de acordo com a especificidade da Criação – é devido a ele que não vivemos num mar de fogo ou no fundo do oceano, mas sim rodeados por ar.  Em outras linhas, ele também é chamado de ‘Gabriel’. Não iremos nos aprofundar mais sobre este assunto, visto a sua complexidade e necessidade de que disponhamos um conjunto de experiências que nos permitam situar o assunto para além da mera credulidade.

Se cada ser humano é dotado de um ‘AUR’ com o qual podemos nos comunicar e, até certo ponto, atuar sobre ele dependendo do desenvolvimento das nossas capacidades e competências de Ser, então fica claro que o conceito de Trindade Cristã evoluiu muito dentro da perspectiva do Trabalho de Quarto Caminho e, ao mesmo tempo, nos permite descortinar oportunidades, modos de utilizá-lo como elemento de nosso aperfeiçoamento.

Esta é a razão fundamental para a existência das Escolas de Quarto Caminho, não como uma digressão filosófica do estado mecânico do ser humano, mas como um elemento em evolução e que tem de aprender a reconhecer, dominar e aplicar os diferentes mecanismos, ferramentas que lhe foram conferidos.

Androginia

Fica claro, desde o início, que o Trabalho de Quarto Caminho não irá se interessar pela vertente biológica/sexual que o termo indica, mas sim pela dimensão das energias e modos de Consciência que um indivíduo deve aprender a controlar no sentido da evolução do seu Ser.

O paralelo mais próximo que podemos estabelecer com essa postura de evolução do Ser pode ser encontrado dentro da Alquimia, onde o andrógino representa a união indissolúvel e a superação das polaridades masculinas e femininas numa nova dimensão do Ser, com características que não apenas superam como completam as polaridades isoladamente.

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Na Alquimia, a androginia, como o homem e mulher combinados, representa um símbolo que nos mostra várias verdades, entre elas:

  • Compleitude Primordial e Perfeição
  • O Estado Absoluto
  • Totalidade em Harmonia
  • Comunhão do Espírito com a Matéria
  • Libertação da Dualidade do Mundo
  • Recuperação do Paraíso
  • Fusão da Atividade com a Receptividade atuando como
  • Elemento Neutralizador
  • Recombinação das formas Masculina e Feminina Primordiais
  • A Unidade original do Pai e da Mãe
  • Imortalidade.

Se considerarmos que pelos conceitos do Trabalho, a verdadeira e única alquimia que vale a pena ser feita é a da nossa própria transformação, iremos ver que os elementos citados acima fazem parte do processo de desenvolvimento da Consciência humana, desde o seu estágio primitivo, dual, separado e adormecido, para o estado de união e unificação com a totalidade da Criação e a aquisição, finalmente, de uma imortalidade.

Ao considerarmos o cérebro humano, a ciência nos diz que este apresenta três grandes subdivisões: um hemi-cérebro esquerdo, um hemi-cérebro direito e uma estrutura que estabelece a comunicação de ida e volta entre eles, que recebeu o nome de corpo caloso.

Por uma característica de desenvolvimento neurológico, o cérebro direito está relacionado com a parte esquerda do nosso corpo, enquanto que o cérebro esquerdo, por sua vez, está relacionado com a parte direita do corpo. Além disso, a Neurologia nos diz que cada hemisfério apresenta características distintas do outro, mas que se embricam entre si.

Os estudos das neurociências, mais notadamente, no final do século passado e no início do século 21 avançaram muito rapidamente no estudo das funções e capacidades cerebrais graças ao surgimento de técnicas não invasivas que permitiam observar o que acontecia dentro do cérebro humano enquanto vivo e realizando uma série de tarefas. Na tabela abaixo citamos algumas características que foram identificadas no funcionamento de cada hemisfério:

Hemisfério Esquerdo Hemisfério Direito
Positivo ou Masculino Espontâneo ou Feminino
Analítico Afetivo
Linear Não-Verbal
Lógico Intuitivo
Explícito ou Verbal Visual
Sequencial Holístico
Sério Humorístico
Racional Difuso
Ativo – Atuante Simbólico – Expectante
Orientado para alcançar metas ou objetivos Busca a perspectiva do todo
Emoções pequenas e limitadas, contidas Emocionalidade ampla e explosiva
Detalhista, minucioso Total, holístico

Além disso, os hemisférios apresentam uma tendência de utilização preferencial de um dos modos de funcionar em detrimento do outro, num processo chamado de lateralidade, que afeta o modo com que o indivíduo atua na sua vida enas relações com outras pessoas e com a sua própria profissão.

Em função da tarefa a ser realizada, podemos dizer que um hemisfério poderá assumir o papel de força ativa ou passiva, enquanto que o corpo caloso que permite uma avaliação de ida e volta frente ao desenvolvimento das ações, representaria a força neutralizadora. O que deve ser notado é que num indivíduo de forte lateralização, o outro hemisfério tende a ser censurado ou tornado emudecido, sem poder participar produtivamente do processo. Será dentro dessas situações que cumpre reconhecer a nossa própria lateralidade e tentarmos corrigir suas deficiências quando elas existem.

A lateralização indica o grau com que as funções cerebrais são realizadas pelo hemisférico apropriado à tarefa que se pretende realizar (por exemplo, fazer contas com números pelo hemisfério esquerdo e tentar lembrar-se do rosto de uma pessoa, pelo direito). 

Os homens, que costumam apresentar uma forma mais intensa de lateralização, tenderão a se localizar mais profundamente no hemisfério correspondente, enquanto que indivíduos que têm uma menor intensidade de lateralização, como é o caso das mulheres, poderão realizar uma tarefa em qualquer um dos seus hemisférios.

Existem raros indivíduos que atuam bem igualmente em ambas as formas de atuação, direita e esquerda ao mesmo tempo, como foi o caso de Leonardo da Vinci; na maioria dos casos o indivíduo não consegue trocar de lateralidade, embora seja possível desenvolver as qualidades e competências do hemisfério menos solicitado. Isto geralmente acontece quando ocorrem grandes modificações de estilo de vida ou pela mudança de responsabilidades dentro do trabalho, ou quando surgem novas oportunidades que exigem uma qualidade diferente de desempenho cerebral, por exemplo.

Não importa qual seja a predominância cerebral do indivíduo, eles sempre são colocados em funcionamento, com um viés, dependendo da natureza da tarefa a ser executada assim como da própria organização cerebral.

Desta forma, podemos dizer, de forma geral, que um estado de consciência masculino apresentaria uma predominância das funções cerebrais esquerdas, enquanto que,no estado de consciência feminino, uma predominância das funções direitas, a grosso modo.

Não desejamos estabelecer aqui uma identidade entre Consciência e cérebro, mas sim, notar que a Consciência recebe, inevitavelmente, uma grande influência do modo de organização e estruturação do cérebro do indivíduo o que, de certo modo, explica as diferenças de opinião, atitudes e muitas outras atividades que podemos identificar nas pessoas que nos rodeiam.

O Quarto Caminho reconhece o estado de consciência normal de um homem ordinário como sendo um estado inicial e potencialmente capaz de ser desenvolvido até a sua perfeição e competência possível e que isso, de certa maneira, reflete o surgimento de novas formas de tomar Consciência das coisas, seja em termo de amplitude (quantidade de elementos, sua complexidade, modos de ordenamento) e qualidade (significância e modos de interação numa realidade mais complexa).

As técnicas do Trabalho visam aperfeiçoar, corrigir a ampliar o escopo das experiências dos indivíduos e interessados, gerando um processo de pressão e estímulo cerebral que, num primeiro momento, amplifique e complete cada polaridade inicialmente, para depois, fundi-las numa totalidade representada pelo Andrógino, na forma de um pensamento único, dialético, coeso e completo, capaz de uma compreensão e representação mais ampla do mundo em que o indivíduo se encontra e lhe permitindo novas oportunidades e escolhas, novos desafios para o aperfeiçoamento da sua Consciência pessoal.

Tal processo não é levado em consideração pelo mundo ordinário, que busca apenas um aumento da eficiência mecânica e na aceitação submissa dos valores que são oferecidos como moeda de troca social.

No Trabalho de Quarto Caminho, as três dimensões de Consciência que são trabalhadas no indivíduo, o Corpo (ou dimensão física, quando levamos em conta o contexto maior do indivíduo, situado para além do seu próprio organismo), o Emocional (idem, no que concerne na conscientização e atuação sobre elementos de justiça e responsabilidade social e ecológica, por exemplo) assim como no Intelecto, na tentativa de gerar oportunidades e propostas de crescimento que possam ser compartilhadas com todos os seres vivos,  buscando uma integração num único Ser.

Portanto, o Andrógino, no Trabalho, busca conduzir o ser humano de uma perspectiva limitada e adormecida, para o seu despertar como um Ser pleno em Consciência e Humanidade, buscando não apenas alcançar a sua própria perfeição, mas também torná-la possível para os demais seres. Ele não é nem masculino nem feminino, mas faz uso correto e eficiente das energias e posturas de cada gênero, sem estabelecer qualquer critério de favorecimento ou reprimindo um pelo outro. Não contempla uma sexualidade, seja ligada à procriação ou como elemento recreativo prazeroso, mas a supera, ao introduzir uma forma de amor que não mais depende do corpo e das suas respostas sexuais exclusivamente. Este amor, agora, se expressa na forma de uma paixão e dedicação para tudo e todos, na busca da felicidade de todos sem exceção e, finalmente, na realização do papel que lhe foi atribuído dentro da Criação, antes mesmo dela ter sido criada.

CG/cg São Paulo

INK –  05-03-2015